Autismo: O Mapa que Chegou com Atraso (Crônica do Eu)
Há quem diga que o diagnóstico é um ponto final, mas para mim ele foi um ponto de partida para o passado e para o futuro. Recebi o veredito definitivo quando tinha acabado de completar os 43 anos, embora as pistas estivessem espalhadas pelo chão da minha história como migalhas de pão que eu não sabia seguir. Hoje, aos 46, olho para o espelho e vejo um homem que aprendeu a ler a si mesmo em uma língua que só ele fala. Ainda com alguns ruídos, mas muito mais claro.

Lembro-me dos 24 anos. O Brasil ainda engatinhava no entendimento do autismo quando um professor da Pós-graduação em Didática das Ciências — um psiquiatra com olhos de lince — percebeu que o meu silêncio na sala não era timidez e nem minhas saídas frequentes eram por indisciplina, era saturação. Ele me levou a uma amiga neurologista. Algumas conversas depois, o diagnóstico estava lá, sussurrado entre nós. Na época, não me importei com o rótulo. Eu só queria uma licença poética para não ser considerado “louco”.
Mas o mundo era barulhento demais. Quarenta e duas pessoas em uma sala de aula de pós-graduação eram, para mim, quarenta e dois universos em colisão. O Ensino Médio já fora um campo de batalha; a graduação, o meu limite. Não aguentei. Abandonei o curso. Tempos depois descobri que minha liberdade morava no Ensino à Distância, onde o único som era o do virar das páginas, a luz a da interface virtual e o silêncio a moldura necessária para o exercício pleno do pensamento.
Aos 18 anos, tornei-me professor. O concurso público foi o meu santuário. Na sala de aula, com adolescentes de Ensino Fundamental, sou eu quem rege a orquestra. Eu domino a rotina, e eles, mesmo em sua energia bruta e honesta, não me cansam tanto. Mas fora dali, a vida exige muletas. Meus fones de ouvido são meu escudo em vários ambientes; às vezes abafadores, às vezes música, sempre uma barreira entre o meu eu e o caos humano.
Houve um tempo em que as filas eram o meu inferno pessoal. Em instantes o pânico subia pela garganta, trazendo náuseas, vômitos e aquela certeza gélida de que o coração ia parar. O peito apertava, o braço dormia, a respiração fugia de mim. Quantas vezes o hospital foi o meu destino final por causa de tensões musculares que eu nem sabia que carregava?
Aos 39, a busca recomeçou. Uma peregrinação por consultórios. Psicólogos, psiquiatra, endocrinologista, psiquiatra de novo, neuropsiquiatra, neuropsicólogos… até que o laudo final desse nome aos meus fantasmas: Autismo Nível de Suporte 1, TDAH e AHSD. E, com eles, um presente: o hiperfoco na leitura e escrita. Como foi tão difícil ver isso se desde a infância eu lia quase que compulsivamente? Hoje, os livros são meus pulmões. A literatura é o que me faz vivo.
Ainda luto com as ironias da mente.
Aprendi a dirigir rápido. Mal conseguia prestar atenção nas aulas da autoescola, mas fechei provas teóricas. Porém o TDAH é um passageiro perigoso. Uma vez, em meio a uma conversa, minha mente simplesmente “saiu” do carro e eu, por puro esquecimento de que estava ao volante, saí da estrada. Por muito pouco o carro não capotou.
Hoje, dirigir é um ritual litúrgico: a mesma playlist por anos e o suporte medicamentoso para enfrentar a luz branca do sol nordestino, aquela claridade que nem as lentes fotossensíveis conseguem domar.
Moro em uma cidade pequena, no litoral do Nordeste do Brasil. Sou pai, marido, doutorando em Neurociências.
Às vezes, me pergunto: e se eu não fosse um servidor público concursado? O autismo talvez fosse o meu grande segredo guardado a sete chaves sob o medo da exclusão.
Muitas vezes ouço que “nem pareço autista”. Sorrio, mas o sorriso carrega um peso que ninguém vê. É possível ir longe, sim. EMas para quem vive na minha pele, cada quilômetro percorrido tem o custo de uma maratona silenciosa.


